Reportagem: Guilherme Vicente de Morais
Foi em abril de 2025, mês que celebra o Dia Internacional do Livro, que o Rio de Janeiro se tornou oficialmente Capital Mundial do Livro. O reconhecimento da UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura) é mais que simbólico: confirma a vocação da cidade como guardiã da literatura e difusora de cultura. Berço de escritores célebres e palco de uma cena literária vibrante, o Rio reafirma seu papel central no imaginário cultural do país, agora, com os olhos do mundo voltados para suas bibliotecas, editoras, livrarias e leitores.
Ser a primeira cidade de língua portuguesa a receber esse título também tem um valor histórico. O Brasil é o maior país lusófono do mundo — que tem o português como língua oficial ou dominante, e o Rio, que já foi capital da Colônia, do Império e da República, simboliza essa herança. Para Lucas Padilha, secretário municipal de Cultura, “o título é um ensejo para mostrar a força da literatura em português e para conectar a cidade ao universo de leitores e escritores lusófonos”. Ele destaca a entrega da Caixa Literária Lusófona a bibliotecas públicas de 23 cidades que integram a Assembleia Geral das União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa, como um dos marcos dessa diplomacia cultural. O secretário espera ainda que, “em breve, outro país que fala e escreve português receba o mesmo título, pois ele amplia a divulgação cultural da língua mundo afora”.

A programação literária da cidade vai atravessar todo o ano. A Bienal do Livro, em junho, será o ponto alto, com estande exclusivo da Prefeitura, rodas de conversa, exposições e painéis sobre o impacto da literatura na economia e na vida urbana. Em novembro, a cerimônia do Prêmio Jabuti, pela primeira vez, será realizada no Rio, com uma categoria inédita dedicada exclusivamente a iniciativas de fomento à leitura na capital fluminense.
O título de Capital Mundial do Livro está profundamente vinculado à Agenda 2030 da ONU. O reconhecimento movimenta diversos setores da sociedade, permitindo que as transformações reais ampliem o alcance dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). O acesso à leitura e bibliotecas fortalece a educação de qualidade (ODS 4), reduz desigualdades ao incluir comunidades vulneráveis (ODS 10), e valoriza espaços culturais urbanos (ODS 11), tornando as cidades mais inclusivas e sustentáveis. Por outro lado, as parcerias entre setores públicos e privados (ODS 17), impulsionam a economia criativa e a geração de empregos (ODS 8), promove a igualdade de gênero (ODS 5), da consciência ambiental (ODS 13) e da cultura de paz (ODS 16), consolidando o livro como ferramenta de transformação social e cultural.

A iniciativa da UNESCO tem também dimensão social. Para Isabel de Paula, coordenadora do setor de cultura da UNESCO no Brasil, o reconhecimento “traz transformações significativas, ampliando o acesso à leitura como ferramenta de inclusão e de impulso da economia”. A cidade aposta em editais que somam R$5,14 milhões para apoiar projetos em comunidades e em políticas permanentes, como o programa Bibliotecas do Amanhã, que investe na revitalização de espaços de leitura públicos.

Esse esforço é celebrado por quem escreve. O carioca Gonçalo Belarmino, autor do livro Bora Ser Feliz, da Editora Escreva, destaca a importância da leitura desde a infância. “Se desejamos um país mais justo, precisamos fortalecer desde cedo uma geração de leitores. Um livro pode salvar uma criança do mundo da criminalidade”, diz. Para ele, o título representa uma oportunidade de valorização real da literatura como ferramenta de transformação social e resgate de pessoas em situações de vulnerabilidade.
Para o presidente do Sindicato Nacional de Editores de Livros (SNEL), Dante Cid, o momento também abre portas para o setor editorial. “Esperamos que esse impulso traga bibliodiversidade e maior acesso, especialmente por meio das bibliotecas públicas”, explica. Ele aposta no fortalecimento de editoras independentes e na ampliação do público leitor.

Mais do que um troféu, o título de Capital Mundial do Livro é, para o Rio, um chamado. Um ano para semear boas histórias, abrir livros e convidar toda uma cidade a reencontrar seu papel no mundo através da leitura. A cidade está escrevendo um capítulo relevante de sua história, com livros nas mãos e literatura nas ruas.