Há algum tempo, parece impossível participar de uma palestra, de um fórum ou de uma reunião sem ouvir duas palavras: inteligência artificial. Fala-se sobre suas possibilidades, seus riscos e, quase sempre, sobre o medo de que ela venha substituir pessoas e eliminar empregos.
Mas talvez estejamos olhando para a pergunta errada.
A inteligência artificial veio para ficar. Em pouco tempo, utilizá-la será tão comum quanto usar um celular. Houve uma época em que ter um telefone móvel era um diferencial. Depois, todos passaram a ter um. Hoje, ninguém considera extraordinário mandar uma mensagem pelo WhatsApp, fazer uma chamada, acessar uma rede social ou resolver pelo celular algo que antes exigia deslocamento, papel e tempo.
Com a inteligência artificial acontecerá algo semelhante. Quando todos tiverem acesso às mesmas ferramentas, simplesmente ter IA deixará de ser vantagem. O diferencial estará na forma como cada um souber utilizá-la.
E aqui começa uma questão essencial para a Administração.
A IA nos permitirá realizar em minutos tarefas que antes consumiam horas. Poderemos pesquisar, analisar, escrever, organizar informações e tomar decisões com muito mais agilidade. Isso significa, teoricamente, ganhar tempo.
Mas ganhar tempo não significa necessariamente trabalhar menos.
A história está cheia de exemplos. A máquina de lavar roupas foi criada para eliminar horas de trabalho manual. E eliminou. Mas aquele tempo liberado nem sempre se transformou em descanso. Rapidamente foi ocupado por outras tarefas. Se a máquina lava a roupa, sobra tempo para limpar a cozinha, organizar a casa, resolver outra coisa. A tecnologia retirou uma tarefa, mas nós tratamos de preencher imediatamente o espaço deixado por ela.
Corremos o risco de fazer exatamente o mesmo com a inteligência artificial.
Administrar sempre foi escolher. Escolher prioridades, distribuir recursos, organizar processos e tomar decisões. E talvez o recurso mais precioso que teremos de aprender a administrar daqui para frente seja justamente aquele que a tecnologia promete nos devolver: o tempo.
O bom administrador não será apenas aquele que souber utilizar melhor a inteligência artificial para produzir mais. Será também aquele que souber decidir o que fazer com o tempo que ganhou.Se uma atividade que levava quatro horas passar a ser realizada em uma, provavelmente colocaremos outras três horas de trabalho no lugar. Faremos mais relatórios, participaremos de mais reuniões, responderemos mais mensagens, assumiremos mais compromissos. Seremos mais produtivos, certamente. Mas não necessariamente teremos uma vida melhor.
Por isso, acredito que o grande desafio da era da inteligência artificial não será apenas tecnológico. Será administrativo.
Talvez parte dele deva ser usada para estudar e aprender. Outra para pensar, criar e desenvolver aquilo que nenhuma máquina pode viver por nós. E parte desse tempo pode simplesmente voltar para onde nunca deveria ter saído: para a família, para os amigos, para uma viagem, para uma conversa sem pressa, para o silêncio, para o ócio, para a própria vida.
A inteligência artificial será uma ferramenta extraordinária. Mas ferramenta nenhuma deveria determinar o destino do tempo que economiza.
“A IA pode nos ensinar a fazer mais em menos tempo. A Administração terá de nos ensinar algo ainda mais importante: o que fazer com o tempo que sobrou.”
Hélio Queiroz
Presidente do Conselho Regional de Administração do DF