Sevani Matos, presidente da CBL, fala sobre internacionalização, novos mercados e as estratégias para ampliar a presença da produção editorial brasileira.
Reportagem: Hulda Rode Fotos: Elisângela Borges
O mercado editorial brasileiro vive uma transformação que ultrapassa as páginas dos livros. Novas tecnologias, mudanças nos hábitos de leitura, inteligência artificial, internacionalização e a necessidade de políticas públicas permanentes redesenham uma cadeia que conecta autores, editoras, livrarias, bibliotecas e leitores. Nesse cenário, fortalecer o livro significa também preparar o setor para um futuro mais inovador, sustentável, plural e competitivo.
À frente da Câmara Brasileira do Livro (CBL), Sevani Matos conduz uma agenda que busca ampliar o diálogo entre os diferentes elos dessa cadeia e posicionar o livro como instrumento estratégico para a cultura, a educação e o desenvolvimento do país. Sua gestão tem entre as prioridades a defesa de políticas públicas de leitura, a regulamentação da inteligência artificial com respeito aos direitos autorais, a sustentabilidade, a bibliodiversidade e a expansão internacional da produção editorial brasileira.
Nesta entrevista à Revista Escreva, Sevani fala sobre os desafios e oportunidades que estão moldando o setor, aponta segmentos com potencial de crescimento, aborda os impactos da tecnologia e revela como o Brasil pode ampliar a circulação de seus autores e obras no mundo. Uma conversa sobre o presente do livro — mas, sobretudo, sobre o futuro de uma indústria que ainda tem muitas histórias para contar.

1. Qual é hoje a principal frente de atuação da CBL para fortalecer a cadeia produtiva do livro no Brasil?
A CBL tem trabalhado para manter o setor unido, competitivo e sustentável. O principal é a necessidade de continuidade e fortalecimento das políticas públicas voltadas à leitura, como o Plano Nacional do Livro e da Leitura, essencial para garantir acesso, formar leitores e fortalecer a cadeia produtiva. Entre as outras prioridades atuais está a defesa da Lei Cortez, que busca estabelecer regras de concorrência equilibradas para toda a cadeia produtiva do livro. Outro tema central é a regulamentação da inteligência artificial, garantindo que a tecnologia respeite os direitos autorais e valorize o trabalho de escritores e editoras.
Seguimos também avançando em frentes estruturantes, como a sustentabilidade, com o Guia de Boas Práticas Sustentáveis no Setor Editorial, e a internacionalização do conteúdo brasileiro por meio do Brazilian Publishers, em parceria com a ApexBrasil.
No campo da valorização da produção nacional, fortalecemos nossos grandes projetos: a Bienal Internacional do Livro de São Paulo, o Prêmio Jabuti e o Prêmio Jabuti Acadêmico, que reconhece a excelência da produção científica e técnica brasileira. Juntos, esses programas reafirmam o compromisso da CBL com a cultura, a educação e o futuro do livro no país.
2. Que metas sua gestão estabeleceu para ampliar o impacto da instituição no setor editorial?
Nossa gestão tem como meta consolidar a CBL como uma liderança estratégica e de diálogo permanente, capaz de representar todo o setor do livro com força e unidade. O foco é fortalecer a cadeia produtiva, apoiar o desenvolvimento de editoras e livrarias, e ampliar o acesso ao livro e à leitura em todas as regiões do país. A partir da nossa Plataforma de Trabalho 2025–2027, definimos diretrizes que priorizam a inovação, a inteligência de dados, a sustentabilidade e a valorização da bibliodiversidade. Isso significa investir em estudos e informações que apoiem as decisões do mercado, promover a internacionalização do conteúdo brasileiro por meio do projeto Brazilian Publishers, e acompanhar de perto temas estratégicos como a regulamentação da inteligência artificial, assegurando o respeito aos direitos autorais e à criação intelectual. Também seguiremos aprimorando a gestão e os serviços da CBL, com o objetivo de entregar mais valor aos associados e ampliar o impacto institucional da entidade na promoção do livro, da leitura e da cultura.
3. O mercado do livro tem demonstrado resiliência, mas ainda enfrenta desafios. Quais são os pontos mais críticos do cenário atual?
O setor do livro no Brasil tem mostrado grande capacidade de adaptação, mas ainda enfrenta desafios estruturais que exigem atenção constante. O principal deles é a necessidade de continuidade e fortalecimento das políticas públicas voltadas à leitura, como o Plano Nacional do Livro e da Leitura, essencial para garantir acesso, formar leitores e fortalecer a cadeia produtiva.
4. Que segmentos editoriais apresentam maior potencial de crescimento?
Os segmentos que hoje apresentam maior potencial de crescimento são Obras Gerais e Religiosos. Segundo a pesquisa mais recente de Produção e Vendas do Setor Editorial Brasileiro, o mercado cresceu 3,7% em 2024, com destaque para Obras Gerais (+9,2%) e Religiosos (+8,7%), impulsionados pelo aumento do interesse em literatura, espiritualidade e temas de bem-estar.
5. Como a inovação tecnológica tem transformado o setor do livro?
A tecnologia ampliou o alcance da leitura e não substituiu o livro físico — ainda preferido pela maioria dos leitores.
E-books e audiobooks democratizam o acesso e atraem novos públicos, enquanto as livrarias seguem essenciais para a descoberta de autores.
A inteligência artificial já está impactando a produção editorial, da tradução à curadoria de conteúdo. Por isso, a CBL atua para que esse avanço ocorra com responsabilidade e segurança jurídica, preservando a autoria e os direitos de quem cria.
6. Como a CBL amplia o espaço e a visibilidade de autores brasileiros?
A valorização dos autores é um compromisso permanente. O Prêmio Jabuti e o Prêmio Jabuti Acadêmico reconhecem a excelência literária e científica, impulsionando carreiras dentro e fora do país.
A Bienal Internacional do Livro de São Paulo é uma vitrine essencial para novos e consagrados nomes, e o Brazilian Publishers tem levado a literatura brasileira às principais feiras do mundo, consolidando nossa presença internacional.

7. Quais os principais obstáculos para o desenvolvimento de carreiras literárias no Brasil?
O grande desafio é garantir que os autores possam viver de sua obra. Isso depende de uma cadeia forte — editoras saudáveis, livrarias ativas, bibliotecas abastecidas e políticas públicas consistentes de leitura.
Também é preciso investir em profissionalização, oferecendo acesso a formação, agentes literários e oportunidades de internacionalização. A bibliodiversidade é um valor central: queremos um mercado que acolha diferentes vozes, estilos e origens.
8. Como a CBL avalia as políticas públicas voltadas ao livro e à leitura?
A Câmara Brasileira do Livro vê as políticas públicas voltadas ao livro e à leitura como fundamentais para o fortalecimento de toda a cadeia do livro — do autor ao leitor. Iniciativas que incentivem a leitura, ampliem o acesso e fortaleçam bibliotecas e livrarias são essenciais para formar novos leitores e sustentar o crescimento do setor.
Nos últimos anos, temos acompanhado um retorno do diálogo com o poder público, o que é muito positivo. A CBL tem participado ativamente da construção de propostas, como a Lei Cortez, que busca garantir recursos permanentes para o Plano Nacional do Livro e Leitura (PNLL), e também em discussões sobre direitos autorais, inovação e inteligência artificial.
O que defendemos é a continuidade e a integração dessas políticas — que não sejam ações pontuais, mas estratégias de longo prazo, com orçamento garantido e participação de todos os agentes do setor. Só assim o livro e a leitura poderão ocupar o lugar que merecem nas políticas culturais e educacionais do país.
9. Que medidas poderiam ampliar o acesso ao livro, especialmente em escolas e bibliotecas públicas?
Ampliar o acesso ao livro passa, antes de tudo, por políticas públicas consistentes e de longo prazo. É fundamental garantir investimentos regulares na atualização dos acervos das escolas e bibliotecas públicas, além da valorização dos profissionais do livro e da leitura, como bibliotecários, mediadores e professores.
Outro ponto importante é assegurar a presença do livro brasileiro nesses espaços, com editais que contemplem a diversidade regional e estimulem a produção nacional. Programas como o PNLD têm papel estratégico e precisam ser fortalecidos e atualizados para acompanhar as novas formas de leitura, inclusive as digitais.
Também é essencial investir na infraestrutura das bibliotecas, integrando-as a redes de leitura e tecnologia, e apoiar parcerias entre o poder público e a iniciativa privada, que possam ampliar o alcance de projetos de doação, clubes de leitura e circulação de livros.
A CBL acredita que, com planejamento e continuidade, é possível transformar as escolas e bibliotecas em verdadeiros centros de acesso, formação e encantamento pela leitura.
10. Como o Brasil pode ampliar sua presença no mercado internacional do livro?
O Brasil tem ampliado de forma consistente sua presença no mercado internacional do livro, e o Brazilian Publishers tem sido o principal motor desse movimento. O programa é uma iniciativa da Câmara Brasileira do Livro (CBL) em parceria com a ApexBrasil, e tem como objetivo promover a internacionalização do conteúdo editorial brasileiro, fortalecendo a presença de nossas editoras e autores no exterior.
O projeto reúne ações de capacitação, inteligência comercial e promoção internacional, oferecendo suporte técnico e estratégico para que o setor editorial brasileiro negocie direitos autorais, traduções e parcerias em feiras e eventos como Frankfurt, Londres e Bolonha.
Em 2025, o Brazilian Publishers já movimentou US$ 14,3 milhões em negócios apenas no primeiro semestre, um crescimento de 7% em relação ao ano todo de 2024, o que demonstra o avanço da competitividade do livro brasileiro no cenário global e o reconhecimento crescente da nossa produção literária e intelectual.
11. Quais tendências devem pautar o setor nos próximos anos e como a CBL está se preparando?
Vivemos uma era de transformações aceleradas, e a CBL atua de forma proativa para acompanhar esse movimento.
Entre as principais tendências estão a inteligência artificial, a sustentabilidade, a inclusão e bibliodiversidade, a leitura como política de Estado e a expansão internacional.
O futuro do livro será híbrido, plural e sustentável, e a CBL seguirá construindo pontes entre autores, leitores e instituições para que o livro continue sendo uma força viva da cultura e da educação brasileira.
12. Que mensagem a senhora deixa aos leitores da Revista Escreva sobre o papel do livro na sociedade?
O livro é uma ferramenta poderosa de transformação. Ele forma cidadãos críticos, amplia horizontes e fortalece a cidadania.
Valorizar o livro é investir no futuro do Brasil, porque cada página lida é um passo rumo a uma sociedade mais justa, criativa e democrática.
Em um cenário de transformações profundas, a Câmara Brasileira do Livro segue como grande articuladora do setor, promovendo políticas públicas para o livro e a leitura, fortalecendo a cadeia produtiva e projetando a literatura brasileira no mundo
Sevani Matos, presidente da Câmara Brasileira do Livro