Como o fomento cultural está fortalecendo a cadeia produtiva no interior do Brasil
Lançamento do Crie Políticas Publicas / 1° Fórum, com a presença da Diretoria Técnica do Sebrtae – SP

Como o fomento cultural está fortalecendo a cadeia produtiva no interior do Brasil

0 Shares
0
0
0
0
0

Programas públicos, editais e iniciativas de capacitação estão ajudando produtores culturais e gestores municipais a transformar vocação em economia criativa, inclusão e cidadania nos seus territórios

Repórtagem: Guilherme Vicente de Morais

No Brasil, a cultura é uma força invisível que se manifesta em festas populares, feiras de artesanato, bibliotecas, centros comunitários, pequenos palcos e rodas de saber. Ela está nas expressões do povo, nos gestos cotidianos e nos ritos que conectam passado presente e futuro. É a cultura que preserva o que somos e aponta caminhos para o que podemos ser. Apesar disso, a política cultural historicamente enfrentou cortes, instabilidade e baixa prioridade na agenda pública. Mas há sinais de virada. O fomento cultural tem ganhado centralidade nas discussões sobre desenvolvimento local, geração de renda e cidadania.

Com a Política Nacional Aldir Blanc (PNAB) e a reativação de programas voltados à economia criativa, surgiram novos espaços de articulação entre sociedade civil, poder público e instituições de apoio técnico. Um dos maiores aliados desses avanços tem sido o Sebrae. A instituição atua em mais de 600 municípios por meio do projeto Crie Políticas Públicas, oferecendo apoio especializado para que cidades estruturem seus sistemas de cultura, desenvolvam seus conselhos e criem editais consistentes, acessíveis e voltados às realidades locais.

“Nosso papel é garantir que os recursos culturais impulsionem as cadeias criativas locais”. Jenifer Botossi, durante o lançamento do Crie Políticas Públicas - 1° Fórum. Foto: Sebrae São Paulo.
“Nosso papel é garantir que os recursos culturais impulsionem as cadeias criativas locais”. Jenifer Botossi, durante o lançamento do Crie Políticas Públicas – 1° Fórum. Foto: Sebrae São Paulo.

“Cerca de 3,11% do PIB e 7% dos empregos do país vêm da economia criativa, e 97% das empresas do setor são micro e pequenas empresas”, afirma Jenifer Botossi, coordenadora de Economia Criativa do Sebrae-SP. O Sebrae atua em quatro eixos — políticas públicas, audiovisual, games e moda autoral — promovendo formações, consultorias, missões técnicas e apoio a feiras e rodadas de negócios. “Nosso objetivo é garantir que o recurso fique no município e impulsione as cadeias criativas locais, respeitando suas vocações e talentos”.

Alexandre Freitas viu sua cidade se transformar após o apoio do Sebrae: “Isso muda a forma como as pessoas se veem e veem a cultura na cidade”. - Foto: Arquivo Pessoal.
Alexandre Freitas viu sua cidade se transformar após o apoio do Sebrae: “Isso muda a forma como as pessoas se veem e veem a cultura na cidade”. – Foto: Arquivo Pessoal.

Em Capão Bonito (SP), Alexandre Freitas viu essa transformação de perto. Com o apoio do Sebrae, o município estruturou seu sistema municipal de cultura, reativou seu conselho e elaborou os primeiros editais com critérios claros e transparentes. “Tivemos projetos aprovados por quem nunca tinha acessado um edital antes. Isso muda tudo, muda a forma como as pessoas se veem e veem a cultura na cidade”, diz Alexandre. A democratização dos recursos não apenas impulsionou a produção local, mas fortaleceu o senso de pertencimento da comunidade.

Ainda assim, transformar uma ideia em projeto viável continua sendo um dos maiores obstáculos enfrentados por agentes culturais. “É preciso entender objetivos, orçamentos, cronogramas, plano de comunicação, acessibilidade e impacto social. Sem apoio técnico, isso é quase impossível para quem está na ponta”, explica Jenifer. A capacitação contínua e a orientação prática se tornaram cruciais para garantir sustentabilidade aos projetos culturais, especialmente em territórios onde a cultura sempre foi vista como atividade informal ou hobby.

Nesse contexto, o fomento cultural se mostra também como um poderoso instrumento de articulação social. Mulheres, jovens periféricos, pessoas LGBTQIA+, comunidades tradicionais e artistas independentes encontram em editais, formações e feiras uma porta de entrada para gerar renda e afirmar suas identidades. O acesso ao financiamento cultural, quando democratizado e descentralizado, rompe barreiras históricas de exclusão e ativa redes criativas nos territórios, criando novas perspectivas de futuro onde antes havia invisibilidade.

O fomento cultural também dialoga diretamente com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU. Ele fortalece a educação de qualidade (ODS 4), promove trabalho decente e crescimento econômico (ODS 8), reduz desigualdades sociais (ODS 10), valoriza cidades sustentáveis e inclusivas (ODS 11), estimula inovação e empreendedorismo (ODS 9) e promove a cultura de paz, justiça e instituições eficazes (ODS 16). Reconhecer a cultura como vetor de desenvolvimento significa compreendê-la como infraestrutura essencial — assim como educação, saúde e segurança — e não apenas como expressão artística.

Lançamento do Crie Políticas Publicas / 1° Fórum
Lançamento do Crie Políticas Publicas / 1° Fórum, com a presença da Diretoria Técnica do Sebrtae – SP. Foto: Divulgação/Sebrae SP

Até o fim de 2025, o Sebrae prevê novas formações, a realização do 2º Fórum Crie Políticas Públicas e ações voltadas a segmentos estratégicos como audiovisual, games e moda autoral. As missões técnicas também devem fomentar conexões entre municípios, ampliar o networking entre empreendedores e fortalecer redes criativas regionais que podem se tornar pólos de inovação cultural no país.

O fomento cultural é uma política pública capaz de articular diferentes dimensões do desenvolvimento. Ao impulsionar cadeias produtivas locais e garantir que a diversidade cultural dos territórios tenha voz e espaço, ele contribui para a geração de trabalho, renda e pertencimento. O retorno vai além da cena artística: alcança a economia, a educação, o turismo, o bem-estar social. Uma política estratégica que precisa ser contínua para valorizar a cultura como ativo econômico e como patrimônio coletivo.

Leia Também

Educação do futuro

Se há um consenso sobre o futuro, é este: ele não será uma extensão previsível do presente. E quando se fala em educação, essa verdade se impõe com urgência. Modelos lineares, currículos rígidos e avaliações padronizadas já não dão conta da complexidade do mundo contemporâneo. A escola, para continuar fazendo sentido, precisa se transformar.
Ler Mais