Estresse, distrações e pressão por resultados podem afetar funções essenciais para a alta performance
Reportagem: Andreza Nunes
Vivemos cercados de estímulos a todo o momento. A necessidade de produzir, responder e tomar decisões rapidamente se mistura às telas, notificações e excesso de informações. O que parece apenas uma questão de esforço para manter o foco e a criatividade envolve algo mais profundo: o nosso cérebro também tem limites.

Segundo a neurologista Dra. Ana Kariny, o cérebro avisa antes de chegar ao limite, mas as pessoas costumam ignorar os sinais. Falhas na memória de trabalho, dificuldade de manter a concentração, mente vagando, problemas para seguir instruções com várias etapas e sono não reparador são alguns dos sinais que devem ser vistos como alerta.
Pesquisas conduzidas por Ivanka Savic, do Karolinska Institutet, encontraram alterações em estruturas cerebrais associadas ao estresse em pessoas submetidas a estresse ocupacional crônico. Na prática, isso ajuda a entender por que a exposição prolongada ao estresse pode afetar funções importantes para o desempenho, como planejar, controlar impulsos e tomar decisões.
E a pressão não vem apenas das demandas de trabalho. O ambiente hiperconectado, as microdecisões, como responder ou não a uma mensagem, a presença do celular mesmo sem uso, também disputam constantemente a nossa atenção. Para profissionais e líderes, que precisam se manter focados sob pressão, filtrar esses estímulos se torna ainda mais importante, pois o desafio não é somente a quantidade de tarefas.
Ainda que a sensação seja de produtividade, isso não significa necessariamente produzir com qualidade. Um estudo de 2009, de Ophir, Nass e Wagner, associou o uso de múltiplas mídias a uma dificuldade maior de bloquear informações que não tinham relação com a tarefa em andamento, ficando mais propensos a estímulos e pensamentos irrelevantes. “O cérebro perde a capacidade de filtrar o que realmente importa”, explica a neurologista Ana Kariny.

Do ponto de vista neurológico, preservar a atenção é fundamental para manter o desempenho, e na prática isso também significa reconhecer os limites que o corpo impõe. Para o escritor e pesquisador em saúde mental, Gustavo Marcarini, saúde, liderança e performance estão diretamente relacionadas.
Por quase 19 anos, Gustavo conviveu com uma doença cardíaca rara, período em que lidou na prática com o medo, a incerteza e também com os limites do próprio corpo. Através de sua experiência nasceu o Método F.I.X.E.R. (Fé, Iniciativa, Xadrez Mental, Esforço, Resiliência), “é uma forma estruturada de transformar o que aprendi sobrevivendo em algo replicável para quem enfrenta desafios extremos, na saúde, na carreira ou na liderança”, diz o pesquisador.
Em seu método, foi observado melhoras significativas para líderes e suas equipes. Um líder que reconhece o cansaço e o desgaste como sinais operacionais, sai da reação para a clareza, reconhece limites, toma decisões mais conscientes e compreende melhor sua equipe. Como consequência, a relação de confiança se fortalece e os efeitos ultrapassam o ambiente profissional, chegando também à vida pessoal.
“Isso muda o clima […] a equipe se sente mais segura, valorizada e mais à vontade para trazer problemas cedo, antes que virem crise. Fora do trabalho, esse líder se torna uma pessoa mais leve de conviver, mais presente, menos no automático…”, finaliza Gustavo.

A atualidade nos leva a associar alta performance à capacidade de cumprir muitas funções ao mesmo tempo, sempre na “correria”, como costumamos dizer hoje em dia. Nesse ritmo, nem sempre paramos para pensar em como essas demandas estão sendo entregues e muito menos como estamos nos sentindo.
Corpo e mente nos dão sinais e deixam claro que alta performance não é exigir mais do cérebro, mas entender como ele funciona, reconhecer seus limites e criar condições para sustentar um bom desempenho a longo prazo.
“Saúde, liderança e performance nunca estão dissociadas, apenas as tratamos como se fossem caixas separadas”
Gustavo Marcarini, pesquisador em saúde mental