Galeno, o mistério do simples: a força de uma obra que transforma memória em arte

Exposição na CAIXA Cultural Brasília reúne obras de diferentes momentos da trajetória do artista, sob curadoria de Paulo Herkenhoff, e celebra seu legado um ano após sua morte
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Exposição na CAIXA Cultural Brasília reúne obras de diferentes momentos da trajetória do artista, sob curadoria de Paulo Herkenhoff, e celebra seu legado um ano após sua morte
Reportagem: Kátia Turra

O título da exposição traduz uma das características mais importantes da produção de Galeno. Foto: Gilberto Evangelista

Um ano depois da morte de Galeno, ocorrida em 2 de junho de 2025, Brasília voltou a se encontrar com a obra de um de seus artistas mais singulares. Aberta ao público na CAIXA Cultural Brasília, a exposição “Galeno, o mistério do simples” reuniu pinturas, esculturas em madeira, gravuras e objetos produzidos em diferentes momentos de sua trajetória. Com curadoria de Paulo Herkenhoff e coordenação geral da Referência Galeria de Arte, a mostra propõe um mergulho no universo poético de um artista que fez da memória, da cultura popular, das experiências afetivas e dos materiais cotidianos matéria-prima para sua criação.

Mais do que uma retrospectiva, a exposição assumiu o caráter de celebração. O projeto começou a ser concebido ainda em vida por Galeno, que havia escolhido Paulo Herkenhoff para a curadoria. Com sua morte, o sentido da mostra ganhou uma dimensão ainda mais afetiva: preservar a presença do artista por meio de sua obra e revisitar uma trajetória marcada pela capacidade de transformar experiências simples em imagens, formas e objetos carregados de significado.

O título da exposição traduz uma das características mais importantes da produção de Galeno. Para Herkenhoff, o artista se escreve com “S de Simples”, em uma referência à maneira como ele estabeleceu relações entre a modernidade, a artesania e os códigos da arte popular brasileira. Longe de significar uma produção despretensiosa, a simplicidade em Galeno era resultado de uma sofisticada elaboração poética, capaz de encontrar potência estética em materiais, gestos e situações do cotidiano.

“Pensá-lo como um artista ingênuo ou apenas ‘popular’ é um equívoco”, afirmou Herkenhoff, ressaltando a complexidade de sua produção. Em sua leitura, Galeno construiu uma “geometria sensível” entre a cultura popular brasileira, a memória afetiva e a experiência contemporânea.

É justamente esse universo que a exposição procura apresentar ao público. Ao lado das obras, fotografias, matérias de jornais, objetos pessoais e referências à vida do artista ajudam a reconstruir o ambiente que alimentou sua imaginação. A relação com o futebol, especialmente com o Botafogo, seu time do coração, também aparece como parte importante dessa memória afetiva.

Entre as obras apresentadas estão três trabalhos pertencentes ao acervo do Museu de Arte de Brasília (MAB), além do documentário Galeno, Curumim Arteiro, do cineasta Marcelo Diaz. A mostra também recupera trabalhos de diferentes períodos, permitindo acompanhar transformações e permanências de uma linguagem artística que nunca abandonou a relação com suas origens.

Nascido em 13 de maio de 1956, em Parnaíba, no Piauí, Galeno manteve ao longo da vida uma forte ligação com sua terra natal, onde também conservou um ateliê. Criado em Brazlândia, no Distrito Federal, construiu sua trajetória entre referências do Nordeste e do Cerrado, incorporando à produção artística lembranças da infância, brinquedos populares, objetos cotidianos, manifestações culturais e elementos da história da arte.

Foi em Brasília, porém, que sua obra passou a fazer parte da própria paisagem da cidade. O mural da Igrejinha da 308 Sul e o calçadão de Brazlândia são exemplos de trabalhos que ultrapassaram os limites dos espaços expositivos e foram incorporados ao cotidiano dos moradores. São obras que revelam uma característica essencial de sua produção: a capacidade de estabelecer diálogo direto com as pessoas e com os lugares.

Paulo Herkenhoff lembra que Galeno tinha orgulho de suas origens e mantinha uma relação muito próxima com familiares e amigos. “Tinha orgulho de vir de uma família simples do Piauí”, destacou o curador, que também definiu o artista como “um menino candanguinho, que escolheu viver em Brazlândia”.

A simplicidade em Galeno era resultado de uma sofisticada elaboração poética, capaz de encontrar potência estética em materiais, gestos e situações do cotidiano. Foto: Gilberto Evangelista

Para Onice Moraes de Oliveira, da Referência Galeria de Arte, responsável pela coordenação geral da exposição, essa dimensão de proximidade ajuda a compreender a força da obra de Galeno. “A obra dele é simples, colorida, alegre, transmitindo autenticidade e verdade”, afirmou. O que inicialmente seria uma retrospectiva acabou ganhando outro significado após a morte do artista. “O projeto, que era para ser uma retrospectiva da vida dele, depois de sua morte passou a ser uma celebração”, explicou.

A exposição também adquiriu um significado especial para a família. João Francisco de Andrade Galeno, filho do artista, contou que a realização de uma individual na CAIXA Cultural era um projeto que vinha sendo discutido havia alguns anos. A ausência física do pai, entretanto, transformou a experiência em um momento de forte emoção. “Ele não estará aqui para viver esse momento da forma como gostaríamos, mas sabemos que continuará presente através das suas obras, da sua história e das memórias que deixou em cada pessoa que teve a oportunidade de conhecê-lo e admirar sua arte”, afirmou.

Para a família, a mostra representa também a continuidade de um legado. Ao ocupar um espaço de relevância para a cultura brasileira, a produção de Galeno ganha novas possibilidades de encontro com o público e reafirma a importância de uma trajetória dedicada à arte.

Ao longo de sua carreira, o artista construiu reconhecimento no Brasil e no exterior e participou de importantes exposições. Entre seus trabalhos mais recentes estão a participação na 14ª Bienal do Mercosul e na exposição Brasília, Arte da Democracia, além da individual O Piauí é aqui – o Piauí não é aqui, realizada na Galeria Galatea. Em 2025, a obra As Quatro Estações passou a integrar o acervo do Palácio do Planalto.

A trajetória de Galeno também se entrelaça com a história da Referência Galeria de Arte, que há três décadas atua na promoção da produção artística em Brasília. A instituição manteve uma relação próxima com o artista, levando seu trabalho a espaços como a própria CAIXA Cultural e o Museu dos Correios, além de importantes feiras de arte, como SP-Arte e ArtRio. Na galeria, realizou exposições como Arte por Engano e Meu Galeno, esta última dedicada à produção do artista e ao desejo de aproximar sua obra dos colecionadores e amantes da arte.

Ao reunir obras de diferentes períodos e elementos da vida pessoal do artista, “Galeno, o mistério do simples” evidencia que a simplicidade nunca foi sinônimo de superficialidade em sua produção. Pelo contrário. Foi a partir dela que Galeno construiu uma linguagem própria, capaz de aproximar arte erudita e cultura popular, memória individual e imaginário coletivo, infância e contemporaneidade.

A exposição em Brasília se transforma, assim, em uma espécie de reencontro. Para quem já conhecia sua obra, é uma oportunidade de revê-la sob novas perspectivas. Para quem chega pela primeira vez ao universo de Galeno, é uma porta de entrada para uma produção que encontrou beleza naquilo que muitas vezes passa despercebido.

O artista partiu, mas sua obra continua ocupando espaços, ruas, paredes e memórias. E talvez esteja justamente aí o mistério a que o título da exposição se refere: na capacidade de transformar o simples em algo que permanece.

SERVIÇO

Exposição: Galeno, o mistério do simples

Período: Até 4 de outubro de 2026

Horário: De terça a domingo, das 9h às 21h

Local: CAIXA Cultural Brasília – SBS Quadra 4 Bloco A Lotes 3/4 Loja 1 – Asa Sul, Brasília – DF

Para a família de Galeno, a mostra representa também a continuidade de um legado. Ao ocupar um espaço de relevância para a cultura brasileira, a produção ganha novas possibilidades de encontro com o público e reafirma a importância de uma trajetória dedicada à arte.

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