Por Eduardo Galvão
O segundo semestre começa com uma combinação que desafia análises apressadas. A economia apresenta sinais favoráveis: a inflação perdeu força, o mercado de trabalho permanece resiliente e o investimento estrangeiro segue relevante. Ao mesmo tempo, a proximidade das eleições mudou a lógica das decisões. O governo entrou em modo eleitoral. E essa mudança já afeta decisões.
Isso não significa que a política tenha substituído a economia. Significa que será cada vez difícil compreender uma sem considerar a outra. Indicadores de inflação, emprego, renda e atividade continuarão importantes, mas passarão a ser interpretados por seu impacto sobre a disputa eleitoral. Do mesmo modo, decisões políticas serão lidas por seus efeitos imediatos e por sua capacidade de produzir apoio, mobilizar interesses e reorganizar alianças.
No Congresso, cresce o espaço para pautas com retorno político mais visível, enquanto negociações se tornam fragmentadas e sensíveis aos cálculos de cada grupo. No governo, medidas ligadas à renda, ao consumo e à entrega de resultados ganham valor eleitoral. Entre governadores, prefeitos e parlamentares, alianças nacionais disputam espaço com prioridades locais.
Para o ambiente empresarial, essa transição exige uma leitura mais sofisticada. Projetos de investimento, expansão ou financiamento não dependem apenas de juros, demanda e custos. Também precisam considerar mudanças de prioridade, instabilidade regulatória, disputas institucionais e a capacidade do Estado de coordenar decisões durante a campanha.
Eleições produzem efeitos antes das urnas. Expectativas alteram comportamentos, antecipam movimentos e influenciam escolhas mesmo sem mudança formal nas regras. Por isso, pesquisas eleitorais não devem ser lidas apenas como retratos da corrida presidencial, mas como sinais sobre a direção das políticas públicas, das coalizões e do ambiente de negócios.
O calendário eleitoral ainda tem alguns meses pela frente, mas a lógica da eleição já orienta escolhas, negociações e prioridades. Nos próximos meses, será necessário reconhecer sinais de mudança e entender como política e economia se condicionam. Em modo eleitoral, antecipação deixa de ser exercício teórico e passa a ser parte da estratégia.
Eduardo Galvão é empresário, consultor de Relações Governamentais, professor de MBA e autor de livros sobre relações institucionais e risco político. Doutorando em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (UnB), assessora empresas nacionais e multinacionais na análise de cenários políticos, regulatórios e geopolíticos. Nesta coluna, traduz os acontecimentos da política e da economia em reflexões práticas para líderes, executivos e tomadores de decisão.