Como o olhar de uma professora transformou a forma de fazer políticas públicas para mulheres no DF
Reportagem: Guilherme Vicente de Morais
Na educação, aprendeu a planejar. Na escuta, encontrou caminhos. E na gestão pública, decidiu colocar esse olhar pedagógico a serviço das mulheres. Giselle Ferreira, secretária da Mulher do Distrito Federal, tem liderado uma transformação silenciosa, mas profunda na capital do Brasil, baseada em acolhimento, proteção e geração de autonomia. Nesta entrevista exclusiva à Revista Escreva, Giselle fala sobre os avanços e desafios da sua gestão, o papel transformador do empreendedorismo feminino e a importância de políticas que cuidem de quem cuida. A secretária também compartilha suas reflexões sobre o legado que pretende deixar à frente da pasta e sobre o tipo de Estado que deseja para as mulheres do Distrito Federal: um Estado que escuta, que acompanha e que permanece.
Escreva: Secretária, a senhora é professora da rede pública e tem uma trajetória marcada por passagens em diferentes áreas do governo. De que forma sua experiência anterior contribui para sua atuação na Secretaria da Mulher?
Giselle Ferreira: É muito importante entender que, quando entramos em qualquer missão, precisamos conhecer bem aquilo a que estamos nos propondo. Por isso, sempre busquei conhecimento, experiências e referências do que estava funcionando. Então, sinceramente, é preciso, sim, criar a própria roda, mas também construir uma visão mais ampla, coletiva.
Minha trajetória sempre esteve voltada à busca por conhecimento. Em todos os espaços por onde passei, procurei fazer isso. Minha formação como professora também me ajuda muito. Afinal, quando vamos dar uma aula, precisamos de um plano. É necessário ter clareza do objetivo, pensar na melhor forma de incentivar os alunos. Esse olhar pedagógico me acompanha até hoje em tudo o que eu faço.
Escreva: A Secretaria da Mulher ampliou de forma expressiva os investimentos e os equipamentos públicos voltados às mulheres nos últimos anos. Quais dessas ações a senhora destacaria como mais simbólicas para a gestão atual?
Giselle Ferreira: Do ponto de vista dos investimentos, a pasta ampliou significativamente os recursos destinados à área, o que permitiu o aumento no número de prédios e equipamentos públicos mais modernos. Mas, além da implantação desses novos equipamentos públicos, agora temos o desafio de ampliar esses espaços. Precisamos ter uma unidade em cada cidade, criando uma rede capilarizada de atendimento às mulheres. Acredito que é por meio dessa expansão que vamos, de fato, democratizar o acesso aos serviços, especialmente nas regiões mais vulneráveis do Distrito Federal.
Escreva: A Casa da Mulher Brasileira e os Comitês de Proteção são exemplos de políticas que descentralizam o atendimento e promovem o acolhimento. Qual tem sido o impacto dessas unidades nas comunidades?
Giselle Ferreira: A grande diferença é que esses espaços estão mais próximos da comunidade, muitas vezes dentro das administrações regionais ou em locais acessíveis. Hoje, temos sete equipamentos em funcionamento. O resultado tem sido muito positivo, porque estamos atuando em rede, de forma integrada.
Quando, infelizmente, acontece um feminicídio, essa rede também entra em ação, indo até a casa da vítima para oferecer o apoio que a Secretaria e o Estado podem dar à família. Ou seja, temos tanto uma atuação preventiva quanto uma resposta ativa nos casos de violência.
Escreva: Quais os desdobramentos já observados com esse trabalho?
Eu diria que o impacto é visível. As mulheres estão trabalhando mais, estão aceitando mais oportunidades, e estão percebendo que o dinheiro que vem do seu próprio esforço é libertador. No entanto, isso exige que continuemos a promover a autonomia econômica delas, e que o mercado esteja preparado para recebê-las.
A Casa da Mulher Brasileira tem mostrado resultados concretos. Em apenas dois meses de funcionamento, conseguimos perceber diferenças. A proposta da Casa da Mulher Brasileira é justamente essa: ser um espaço de apoio, mas também de fortalecimento da capacidade produtiva das mulheres.
Ainda temos muitos desafios. Não basta apenas garantir a entrada no mercado, é preciso garantir a permanência. Precisamos investir durante o processo de produção, apoiar essas mulheres para que seus empreendimentos não quebrem, não enfrentem riscos desnecessários, e para que elas tenham condições reais de continuar empreendendo com dignidade.
Por isso, a organização e a atuação da Casa da Mulher Brasileira são tão importantes. Ela está ali, acompanhando de perto, oferecendo apoio contínuo. “

Escreva: Uma das inovações mais recentes da pasta foi o Passe Livre para mulheres com medida protetiva. Como essa iniciativa tem fortalecido o acesso aos serviços e contribuído para a segurança das mulheres em situação de violência?
Giselle Ferreira: A questão do passe livre para mulheres em situação de violência é fundamental. Se olharmos os dados, veremos que cerca de 70% das mulheres já foram vítimas de algum tipo de violência, muitas vezes sem acesso ao Estado. Por isso, precisamos incentivá-las a procurar apoio, a buscar ajuda nos equipamentos públicos.
Algo que sempre faço questão de destacar é que o atendimento à mulher não pode ser pontual. Ela não precisa apenas de um atendimento isolado, ela precisa de acompanhamento contínuo. E esse acompanhamento gera custos.
Na maioria das vezes, essas mulheres não têm recursos financeiros para se deslocar. Muitas dependem economicamente do agressor — o próprio marido —, que, naturalmente, não irá fornecer sequer o valor de uma passagem para que ela possa buscar ajuda. Em alguns casos, ele está, inclusive, tentando matá-la.
É por isso que oferecemos transporte gratuito para essas mulheres. Isso garante a elas o acesso ao Estado, o acesso à proteção. E mais do que isso: sinaliza que o Estado está presente, que ela não está sozinha, e que essa ajuda vai continuar.
Sabemos que isso exige investimentos, mas é uma política necessária para que, ao longo do tempo, essas mulheres possam encontrar uma saída da violência. E essa saída passa, também, por outras oportunidades: acesso à capacitação, a novos conhecimentos, e a caminhos que permitam que elas reconstruam suas vidas longe do ciclo de violência.
Escreva: A Secretaria tem investido fortemente em ações de autonomia econômica feminina. Que resultados o programa Movimente DF e seus desdobramentos têm gerado até agora?
Giselle Ferreira: A gente tem buscado estudar e entender a realidade para nos conectar, de fato, com as pessoas, especialmente com as mulheres. Em nossa gestão, temos colocado isso em prática.
Realizamos diversas capacitações voltadas para o mercado de trabalho feminino, com foco em áreas como beleza e estética, mas também olhando para outras realidades, como as mulheres que são mães solo ou que cuidam dos filhos sozinhas, conciliando os dois lados da vida: o pessoal e o profissional.
As capacitações que estamos promovendo têm esse objetivo: preparar as mulheres para o mercado de trabalho de forma prática e realista. Observamos que, no passado, muitos cursos eram oferecidos, mas o mercado não absorvia essas mulheres. Então ajustamos a rota.
Hoje, trabalhamos com duas frentes: ou a mulher empreende, criando o próprio negócio, ou ela é inserida no mercado por meio de parcerias com órgãos públicos. É o caso dos ACTs — Acordos de Cooperação Técnica — que firmamos com instituições que contratam empresas terceirizadas. Com esses acordos, conseguimos garantir vagas para mulheres que passaram pelos nossos cursos.
Escreva: Em 2024, cerca de 6 mil mulheres foram certificadas em cursos profissionalizantes. Como esses cursos têm contribuído para tirar mulheres da vulnerabilidade e ampliar suas possibilidades de geração de renda?
Giselle Ferreira: Esses cursos têm sido transformadores. Eles não só oferecem capacitação técnica, mas também abrem portas para o mercado de trabalho e para o empreendedorismo. Muitas mulheres saem dos cursos com mais confiança, com uma nova perspectiva de vida e, principalmente, com a possibilidade real de gerar sua própria renda. Isso é o que rompe o ciclo da violência, da dependência e gera autonomia.
Escreva: As campanhas públicas como “Mulher Não se Cale”, “Sua Denúncia Salva” e “Carnaval de Respeito” demonstram uma atuação forte na comunicação social. Qual o papel da conscientização e da informação no combate à violência?
Giselle Ferreira: A informação salva vidas. E é por isso que precisamos, cada vez mais, levar conhecimento para todos os cantos do Distrito Federal.
Nada é mais potente do que a linguagem das redes sociais. Sabemos da força que a comunicação tem para gerar mudança de comportamento. E ela precisa ser inclusiva, acessível e voltada também aos homens. Muitas vezes, uma “piadinha” que parece inofensiva alimenta uma cultura de violência. Por isso, nossas campanhas têm falado com os homens: o irmão, o amigo, o colega de trabalho. A última campanha que realizamos usou elementos visuais impactantes e experiências reais para tocar famílias e escolas, espaços fundamentais para a mudança social.
Quando uma mulher vê uma imagem que a representa, ela se sente acolhida. E isso pode ser o primeiro passo para a denúncia ou para o recomeço. Queremos, sim, continuar promovendo ativamente essas campanhas, porque informação é prevenção.
Notícias ruins correm rápido. Um caso de feminicídio ou violência ocupa todos os jornais. Mas e a informação que pode evitar que isso aconteça? É essa que precisamos fazer chegar até as pessoas. Essa é a missão da Secretaria da Mulher: prevenção por meio da informação.

Escreva: O programa Mães Mais que Especiais, que atende mães atípicas e seus filhos, tem gerado atenção positiva. Como a senhora vê a importância de políticas públicas que cuidam também de quem cuida?
Giselle Ferreira: Esse programa nasceu de uma escuta real. Lembro de uma conversa com ativistas em que mencionei o caso da minha própria irmã. Ela é mãe de uma criança atípica e estava aguardando atendimento. Isso me marcou, porque percebi que a criança até tinha suporte em alguns serviços, mas a mãe não.
Foi aí que entendi que não havia uma política pública pensada especificamente para essas mães, mulheres que dedicam integralmente suas vidas aos filhos com deficiência, muitas vezes em silêncio e solidão. Então criamos um programa específico, que leva atendimento até a porta da casa delas. Levamos profissionais especializados para cuidar da criança, mas também olhamos para a mãe, oferecendo apoio psicológico, orientação e, principalmente, dignidade.
Não podemos permitir que essas mães levem vidas fragmentadas, atropeladas por sobrecarga. É uma política sensível, necessária e urgente. O cuidado com a cuidadora tem que estar no centro das políticas públicas. Não basta estar no plano de direitos, é preciso estar na prática.
Escreva: A senhora costuma dizer que “empreender é mais do que gerar renda, é transformar vidas”. Como o empreendedorismo tem sido trabalhado dentro da Secretaria como política estruturante e emancipatória?
Giselle Ferreira: Eu acredito profundamente que o nosso papel é preparar a mulher para a vida, para enfrentar desafios, para participar de entrevistas de emprego, para acessar oportunidades. Quando ouvimos essas mulheres de perto, conseguimos entender melhor o que elas realmente precisam. Isso nos ajuda até mesmo a desenvolver soluções práticas e a recuperar a autoestima, a saúde emocional e física das nossas mulheres. Elas não querem apenas receber algo pronto. Elas querem fazer parte, querem construir. E nós precisamos garantir que elas tenham sucesso e que esse sucesso venha com agilidade, com respeito e com impacto real.
Escreva: Por fim, o que a senhora espera como legado da sua gestão à frente da Secretaria da Mulher do Distrito Federal? Que marca deseja deixar na vida das mulheres do DF?
Giselle Ferreira: Essa é uma questão que exige muito cuidado e responsabilidade. Quando olhamos para a realidade das mulheres, especialmente aquelas em situação de vulnerabilidade social, percebemos que muitas já foram descartadas — ignoradas pelo sistema, pela sociedade, pelo Estado.
Lembro de um caso simbólico: uma mulher que foi desligada do serviço social aos 31 anos, justamente quando mais precisava de apoio. Ela se sentia completamente desvalorizada, como se não houvesse mais lugar para ela na sociedade. Esse tipo de situação nos mostra que ainda temos muito a avançar.
Por isso, acredito que o nosso legado precisa ir além das ações pontuais. Ele deve transformar mentalidades, inclusive a dos homens, porque as políticas públicas para mulheres não são apenas uma pauta feminina. Elas dizem respeito à sociedade como um todo.
Também acredito que a educação é um pilar fundamental dessa transformação. Como professora, sei o quanto a escola pode ser um espaço de acolhimento e de construção de valores. Precisamos atuar com firmeza para que todas as instituições, especialmente as escolas, ofereçam suporte, acolhimento e oportunidades reais para meninas e mulheres.
Meu desejo é que a nossa marca seja essa: a de ter contribuído para uma cultura de valorização, proteção e protagonismo feminino, com políticas públicas que permaneçam e que façam sentido para a vida real das mulheres em todos os cantos do Distrito Federal e reverberem para todo Brasil.