Colunista: Eduardo Galvão
Quando foi a última vez que você se permitiu ficar entediado? Sem notificações, sem rolar a tela, sem abrir nenhuma aba nova. Só você e o silencioso desconforto do tempo vazio.
Vivemos cercados de estímulos, mas vazios de pausa. Fugimos do tédio como se ele fosse perda de tempo, quando, na verdade, ele pode ser um convite. Redes sociais, reuniões em sequência e conteúdo sob demanda nos mantêm ocupados o tempo todo. Mas ocupação não é o mesmo que presença. E muito menos que sentido.
Pesquisas recentes da Harvard Business Review mostram que o tédio pode ser fértil. Ele aponta desalinhamentos, sim, mas também abre espaço para criação, foco e reinvenção. Pode melhorar decisões, fortalecer vínculos e até prevenir o burnout. Ignorá-lo, ao contrário, tem custo: no trabalho, gera desengajamento e evasão silenciosa; na vida social, alimenta desconexão disfarçada de hiperconectividade.
Tenho percebido, na prática, que algumas das ideias mais importantes surgem quando nada está acontecendo, ou melhor, quando estou no banho, fazendo a barba ou na corrida no início da manhã. São momentos em que o ruído externo se aquieta o suficiente para que algo interno emerja. E talvez seja justamente isso que andamos evitando.
Talvez, no tédio, more a pausa que a gente não sabia que precisava. O que será que você poderia descobrir, se ficasse offline por alguns minutos hoje?

Eduardo Galvão é diretor de Public Affairs da consultoria global Burson e professor de Políticas Públicas do Ibmec