Empreender também é ter com quem contar

Em entrevista exclusiva à Revista Escreva, Ana Fontes, fundadora da Rede Mulher Empreendedora, analisa os avanços do empreendedorismo feminino e defende crédito, redes de apoio e políticas de cuidado para ampliar a participação das mulheres na economia.
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Em entrevista exclusiva à Revista Escreva, Ana Fontes, fundadora da Rede Mulher Empreendedora, analisa os avanços do empreendedorismo feminino e defende crédito, redes de apoio e políticas de cuidado para ampliar a participação das mulheres na economia.

Reportagem: Hulda Rode

Ana Fontes, fundadora da Rede Mulher Empreendedora, defende a combinação de capacitação, crédito e redes de apoio para fortalecer os negócios liderados por mulheres. Foto: Ana Paula Lopes

Antes de pensar em expandir o negócio, contratar uma equipe ou conquistar novos mercados, muitas empreendedoras brasileiras precisam resolver uma questão cotidiana: quem vai cuidar dos filhos e da família enquanto elas trabalham? Essa sobreposição de responsabilidades ajuda a compreender por que abrir uma empresa nem sempre significa alcançar autonomia financeira, e por que o empreendedorismo feminino exige respostas que ultrapassam a capacitação profissional.

Os números apresentados por Ana Fontes dimensionam esse desafio. Segundo a pesquisa nacional Empreendedoras e Seus Negócios 2026, realizada pelo Laboratório de Gênero e Empreendedorismo do Instituto Rede Mulher Empreendedora (IRME), 80,7% das entrevistadas já precisaram interromper as atividades de suas empresas para realizar tarefas de cuidado. Para 61,7%, essa sobrecarga limita diretamente o desenvolvimento do negócio. Por trás dos indicadores estão jornadas divididas entre produzir, vender, administrar e sustentar uma rotina de responsabilidades frequentemente assumidas sem apoio.

Foi para dar visibilidade às mulheres nos negócios e construir caminhos de fortalecimento que Ana criou, em 2010, a Rede Mulher Empreendedora (RME). Dezesseis anos depois, ela identifica um ambiente com mais conexões, programas de desenvolvimento e reconhecimento da importância econômica das empreendedoras. As barreiras, contudo, permanecem: dificuldades de acesso a crédito, informalidade, desigualdades de gênero e raça e uma distribuição desequilibrada do trabalho doméstico continuam restringindo as possibilidades de crescimento.

“Precisamos oferecer a elas rede de apoio, capacitação e colocar dinheiro na mesa para que possam prosperar com maior velocidade”, afirma. A declaração sintetiza uma visão que aproxima negócios e impacto social: fortalecer a autonomia econômica de uma mulher pode repercutir na renda familiar, na geração de empregos e na comunidade em que ela vive.

Essa perspectiva orienta as iniciativas de formação, mentoria e conexão conduzidas pela rede e pelo instituto. Segundo Ana, o Instituto RME já impactou mais de 15,4 milhões de pessoas, direta e indiretamente. Nos encontros presenciais, nas plataformas digitais e em iniciativas como o Festival RME e a Virada da Empreendedora, a proposta é transformar a troca de experiências em oportunidades concretas de desenvolvimento.

Nesta entrevista exclusiva à Revista Escreva, Ana Fontes discute as mudanças culturais e institucionais necessárias para ampliar a liderança feminina, explica o papel das redes na construção de negócios e apresenta sua visão sobre a participação das mulheres nas decisões que moldam o Brasil. Sua avaliação aponta para uma agenda de compromissos concretos: compartilhar o cuidado, ampliar o acesso a recursos e abrir espaço para que mais mulheres exerçam poder de decisão.

Revista Escreva: A Rede Mulher Empreendedora nasceu com o propósito de apoiar e dar visibilidade às mulheres nos negócios. Quais foram os principais avanços que você observa desde a criação da RME até hoje, e quais desafios ainda persistem para as empreendedoras brasileiras?

Ana Fontes: Quando criei a RME, em 2010, falar sobre empreendedorismo feminino ainda era algo inexistente no Brasil. Havia pouca visibilidade para as mulheres que empreendiam e quase nenhuma política pública voltada a esse público. Ao longo dos 16 anos em que a RME acompanha o empreendedorismo feminino no país, vemos um ecossistema mais fortalecido: há mais redes de apoio, iniciativas de aceleração e um reconhecimento crescente da importância econômica das empreendedoras.

A trajetória evidencia avanços, ao mesmo tempo em que expõe barreiras estruturais e desafios novos. É preciso entender que, quando as mulheres prosperam financeiramente, todos ganham, pois elas tendem a investir na própria família e na comunidade ao seu redor. Os caminhos estão dados: precisamos oferecer a elas rede de apoio, capacitação e colocar dinheiro na mesa para que possam prosperar com maior velocidade.

Dados da pesquisa nacional “Empreendedoras e Seus Negócios 2026”, realizada pelo Instituto Rede Mulher Empreendedora (IRME) por meio do seu LAB -Laboratório de Gênero e Empreendedorismo, revelam que o trabalho de cuidado não remunerado é um dos maiores entraves ao ecossistema. A maternidade é uma realidade para a maioria das empreendedoras e três em cada quatro (75%) afirmam não contar com qualquer apoio informal, seja de parceiros, familiares ou serviços pagos. Como consequência dessa falta de amparo, 80,7% delas já precisaram interromper as atividades de suas empresas para realizar tarefas de cuidado, e 61,7% confirmam que essa sobrecarga trava diretamente o desenvolvimento do negócio.

Para Ana Fontes, ampliar a presença feminina nos espaços de decisão exige mudanças culturais, equidade salarial e oportunidades reais de ascensão. Foto: Ana Paula Lopes

Revista Escreva: A liderança feminina tem ganhado espaço, mas ainda enfrenta barreiras estruturais. Que tipo de mudança cultural e institucional você acredita ser essencial para que mais mulheres ocupem posições de decisão no país?

Ana Fontes: É fundamental mudar a cultura que naturaliza a desigualdade. Isso precisa ser transformado desde a base, com educação inclusiva, políticas de cuidado e promoção de lideranças femininas em todos os setores. No entanto, ainda enfrentamos desafios estruturais profundos, especialmente no acesso a crédito, na sobrecarga do trabalho doméstico e no preconceito de gênero e raça. Precisamos seguir insistindo para que as mulheres tenham acesso a recursos, formação e oportunidades que lhes permitam crescer de forma sustentável.

Para reduzir essas desigualdades e fortalecer a liderança e a autonomia econômica das mulheres, a avaliação do Instituto Rede Mulher Empreendedora (IRME) aponta para a necessidade de iniciativas integradas que unam crédito acessível, desburocratização e capacitação. Atualmente, os bancos públicos e cooperativas atendem predominantemente empresas formalizadas que buscam valores mais altos, enquanto as fintechs se destacam em empréstimos menores de liberação imediata para Pessoa Física. Essa dinâmica reflete um gargalo estrutural: 74,5% das mulheres acessam recursos via CPF e apenas 35,3% via CNPJ, evidenciando como a informalidade limita o potencial expansivo dos negócios. Diante disso, fatores como burocracia, condições de pagamento, limites liberados e confiança nas instituições tornam-se decisivos na hora de solicitar financiamento.

Nas instituições e corporações, é preciso ir além do discurso e adotar metas claras de diversidade, equidade salarial e oportunidades reais de ascensão. Quando as empresas e o poder público assumem compromissos concretos com a equidade de gênero, o resultado aparece na prática: mais inovação, maior produtividade e crescimento sustentável para toda a sociedade.

Revista Escreva: O Instituto RME desenvolve diversas iniciativas de formação e fortalecimento de lideranças femininas. Que resultados concretos essas ações têm gerado em termos de impacto social e econômico?

Ana Fontes: Nos últimos anos, o Instituto RME já impactou mais de 15,4 mi pessoas direta e indiretamente com programas de capacitação, acesso a crédito e mentoria. Isso se traduz em geração de renda, formalização de negócios e fortalecimento das comunidades locais.

Temos histórias de mulheres que saíram de situações de vulnerabilidade e hoje empregam outras pessoas. Esse é o verdadeiro ciclo de transformação social e econômica que acreditamos: quando uma mulher cresce, toda a rede ao redor dela se fortalece.

Revista Escreva: A atuação em rede é uma marca da RME. Quais estratégias têm se mostrado mais eficazes para conectar mulheres de diferentes regiões, perfis e contextos socioeconômicos, fortalecendo um movimento nacional de empreendedorismo feminino?

Ana Fontes: A força da RME está justamente na diversidade. Criamos uma rede colaborativa em que mulheres de todas as regiões compartilham conhecimento, desafios e soluções.
Nossas estratégias passam pelo uso intensivo da tecnologia, com plataformas digitais e grupos regionais, e por encontros presenciais como os Cafés com Empreendedoras que acontecem nas cidades e que geram pertencimento e confiança. Em 2026 também estamos de forma itinerante com a Virada da Empreendedora que leva workshops, networking e oportunidades de negócios ao público feminino, já passou por Brasília, Rio de Janeiro, Recife e até novembro também chegará em São Paulo. Essa combinação entre digital e humano é o que mantém a rede viva e próxima, mesmo com realidades tão distintas pelo Brasil.

Revista Escreva: Olhando para o futuro, qual é a sua visão sobre o papel da mulher na reconstrução do Brasil, seja nos negócios, na política ou na sociedade civil, e como a RME pretende continuar contribuindo para esse protagonismo coletivo?

Ana Fontes: As mulheres estão na linha de frente da reconstrução do país, liderando negócios, projetos sociais e iniciativas políticas que colocam o cuidado e a sustentabilidade no centro. A RME vai continuar sendo uma ponte: conectando mulheres a oportunidades, fortalecendo lideranças e influenciando políticas públicas. Acredito num futuro em que as decisões sobre o país sejam tomadas com a participação efetiva das mulheres, e estamos trabalhando todos os dias para que isso se torne realidade.

A atuação em rede está no centro da proposta da RME: conectar mulheres de diferentes regiões e transformar experiências compartilhadas em oportunidades de negócios. Foto: Ana Paula Lopes

Revista Escreva: O Festival RME se consolidou como um dos maiores encontros de mulheres líderes e empreendedoras do país, reunindo conhecimento, conexões e inspiração. Como esse evento tem contribuído para fortalecer o ecossistema feminino de negócios e qual é a sua visão sobre o impacto que ele gera na formação de novas lideranças?

Ana Fontes: O Festival RME é a materialização do que acreditamos: a força da conexão entre mulheres. Ele gera visibilidade, oportunidades e aprendizados que reverberam o ano inteiro. É um espaço de troca e inspiração, mas também de negócios concretos e de construção de pautas coletivas. Ver mulheres de diferentes regiões e histórias se reconhecendo e se apoiando é o maior indicador de que estamos no caminho certo, fortalecendo um ecossistema que transforma vidas.

Também aproveito para destacar a Virada da Empreendedora, uma iniciativa da Rede Mulher Empreendedora (RME) que leva workshops, networking e oportunidades de negócios ao público feminino. Nosso objetivo é agir localmente para entregar ferramentas reais que ajudem as mulheres a transformar suas ideias em faturamento e presença de mercado. Queremos que cada participante saia fortalecida, com planejamento claro, parcerias consolidadas e pronta para movimentar o ecossistema local.

Precisamos oferecer a elas rede de apoio, capacitação e colocar dinheiro na mesa para que possam prosperar com maior velocidade

Ana fontes
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