A reformulação da NR1 exige líderes mais preparados, capazes de traduzir normas em prática e promover um novo padrão de cuidado nas organizações.
Reportagem: Guilherme Vicente de Morais
A recente atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), em vigor desde 2022, impõe um desafio real às empresas: como transformar a norma em prática? A resposta passa pela capacitação das lideranças. Mais do que uma atualização técnica, o que a norma traz é uma reconfiguração na forma como as organizações pensam e executam a gestão de riscos ocupacionais. E para que essa mudança aconteça de forma eficiente, a figura do gestor se torna central.
A NR-1 define diretrizes e responsabilidades para o gerenciamento de riscos, incluindo o Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR), que passou a ser obrigatório em praticamente todos os setores. Trata-se de um avanço importante: o foco deixa de ser apenas a correção de problemas e passa a ser a prevenção. Mas esse avanço só se consolida quando quem lidera entende seu papel e se prepara para ele.

“O gestor precisa compreender que, para implementar a NR1, ele precisa estar próximo da equipe. Precisa orientar, monitorar e, principalmente, dar o exemplo”, explica Solange Araújo, especialista em gestão de pessoas. Ela reforça que a mudança não está apenas na forma como se documenta o risco, mas em como se atua sobre ele. E isso exige preparo técnico e sensibilidade para liderar mudanças culturais no ambiente de trabalho.
A psicóloga Rachel Ribeiro reforça que a norma abre espaço para um debate mais amplo sobre saúde e segurança: “A NR1, ao exigir planejamento, análise e controle, nos convida a olhar para o ambiente de trabalho como um organismo vivo. E isso inclui o emocional dos trabalhadores. Muitas vezes, o risco não está só no maquinário, mas na sobrecarga, na ansiedade, na desorganização dos fluxos.”
O que está em jogo, portanto, não é apenas a conformidade legal, mas a maturidade das lideranças diante de um novo modelo de prevenção. Um modelo que demanda leitura de contexto, capacidade de escuta e ações integradas entre os setores da empresa. Neste sentido, a norma representa um novo paradigma: ela exige protagonismo.
No dia a dia das empresas, esse processo tem sido desafiador. Eduardo Lustosa, dono de uma franquia da Ultra Academia, conta que precisou reformular processos internos e capacitar gestores para que todos compreendessem o impacto da nova norma. “Não se trata apenas de cumprir uma exigência. Trata-se de reorganizar a empresa para que o cuidado com a segurança esteja presente em todas as decisões, inclusive nas pequenas rotinas”, afirma.
Por isso, o olhar técnico precisa caminhar junto com o pedagógico. A NR1 não foi desenhada para ficar na gaveta. Ela exige ação, acompanhamento, responsabilização. E, sobretudo, um investimento contínuo em formação. Treinamentos, oficinas internas, planos de desenvolvimento para líderes e envolvimento ativo da alta gestão são estratégias que têm se mostrado eficazes na tradução da norma para a realidade de cada negócio.
E neste novo cenário que se desenha, a educação corporativa deixa de ser um diferencial e passa a ser um componente estrutural da gestão de riscos. E isso vale tanto para grandes empresas quanto para negócios de menor porte. Independentemente do setor, o que define o sucesso da implementação é o quanto os gestores estão preparados para atuar de forma ativa, preventiva e consciente.
A segurança do trabalho começa na liderança. E a liderança começa na educação.
Mais do que um regulamento, a NR1 marca uma virada educacional na gestão de riscos. O futuro da segurança no trabalho depende da capacidade das lideranças de aprender, adaptar e ensinar dentro das próprias empresas.