Com população jovem, expansão do consumo, crescimento econômico e integração comercial, o continente africano desponta como uma das regiões mais promissoras para investimentos.
Reportagem: Hulda Rode

Durante décadas, a África ocupou no imaginário econômico internacional um lugar associado à pobreza, conflitos e dependência. Essa imagem, porém, já não explica a realidade de um continente em profunda transformação econômica, demográfica e institucional.
O movimento pode parecer silencioso para o empresário brasileiro, mas não para os grandes investidores internacionais. China, Estados Unidos, Europa, Oriente Médio e outras economias asiáticas ampliam sua presença no continente, enquanto os países africanos avançam na integração de seus mercados.
A África tornou-se estratégica para quem procura mercados consumidores em expansão, população jovem, demanda por infraestrutura e oportunidades em alimentos, energia, saúde, tecnologia, educação e bens de capital.

Para Rômulo Neves, ministro-conselheiro na Embaixada do Brasil em Kigali, o principal equívoco do empresário brasileiro é não considerar o continente em suas análises de investimento.
“O maior equívoco é não inserir o continente em suas planilhas de estimativa de retorno de investimentos”, afirma.
Segundo ele, os indicadores econômicos e geopolíticos apontam a África como uma das regiões mais promissoras do mundo. O crescimento é acompanhado pela expansão da classe média e do poder aquisitivo, enquanto a população jovem sustenta uma perspectiva de aumento da demanda por décadas.
Para o Brasil, há uma oportunidade particular: setores de tecnologia intermediária podem encontrar no continente mercados menos saturados que os europeus e norte-americanos. Agricultura, alimentos, máquinas, construção, saúde, educação e tecnologia estão entre as áreas com potencial.
Um continente em transformação
A transformação africana vai além do PIB. Envolve urbanização, digitalização, infraestrutura, integração comercial e formação de novos mercados consumidores.
A população jovem é um dos principais ativos. Enquanto economias desenvolvidas enfrentam o envelhecimento populacional, os países africanos concentram milhões de pessoas em idade produtiva e novos consumidores que ainda ingressarão no mercado.
Há desafios, como infraestrutura, financiamento, logística e diferenças regulatórias e culturais. Para Neves, porém, são dificuldades diferentes, não necessariamente maiores que as encontradas em outros mercados. “A diferença é que, quando avaliadas corretamente, podem vir acompanhadas de oportunidades proporcionais”.

Ruanda: o país da vez
Se a África representa uma nova fronteira econômica, Ruanda é um dos exemplos mais expressivos de como planejamento e visão de longo prazo podem alterar a trajetória de um país.
Pouco mais de três décadas depois do genocídio de 1994, que matou cerca de 800 mil pessoas em aproximadamente cem dias, o país construiu uma trajetória de reconstrução que chama a atenção de governos, organismos internacionais e investidores.
Para quem chega a Kigali esperando encontrar apenas as imagens associadas ao passado, a primeira surpresa é visual: limpeza, segurança, organização urbana, trânsito, calçamento e serviços. Mas a transformação vai além da aparência. “São duas surpresas complementares: a cidade só é organizada porque as pessoas são muito sérias”, observa Neves.
De acordo com o diplomata, Ruanda mantém há cerca de duas décadas crescimento econômico médio próximo de 8% ao ano e conseguiu combinar expansão da economia com melhoria na distribuição de renda.
O crescimento também não está concentrado em uma única atividade ou baseado em recursos naturais. Agropecuária, indústria e serviços avançam, apoiados por políticas públicas em educação, saúde e melhoria institucional. O país apresenta ainda indicadores favoráveis em combate à corrupção, regulamentação pública, governo eletrônico e Estado de Direito.
Para Neves, o resultado é consequência de uma estratégia estruturada, com ações de médio e longo prazo e integração entre diferentes áreas do governo para viabilizar investimentos.
Kigali como laboratório
A capital ruandesa traduz essa estratégia. Kigali combina organização urbana, segurança e digitalização em uma cidade que cresce rapidamente. Ruanda também aposta na integração comercial africana e teve papel relevante na articulação do acordo que criou a Área de Livre Comércio Continental Africana, ampliando a possibilidade de negócios para além das fronteiras nacionais.
Para o investidor, esse é um diferencial: embora Ruanda seja um mercado relativamente pequeno, pode funcionar como uma plataforma para acessar outros mercados africanos.
Onde estão as oportunidades?
Para empresas brasileiras interessadas no mercado ruandês, cinco setores aparecem com especial potencial:
- AGROPECUÁRIA: Experiência brasileira em produção agrícola, tecnologia, equipamentos e cadeias de alimentos.
- CONSTRUÇÃO CIVIL: Ruanda vive um forte ciclo de construção e ainda apresenta déficit habitacional, gerando demanda por materiais, equipamentos, engenharia e infraestrutura.
- SAÚDE: Expansão dos serviços abre espaço para equipamentos, tecnologias, gestão e soluções especializadas.
- TECNOLOGIA E INOVAÇÃO: A digitalização do Estado e a modernização dos serviços criam oportunidades para soluções tecnológicas.
- EDUCAÇÃO: A expansão da educação abre espaço para tecnologias educacionais, formação profissional e serviços especializados.
ApexBrasil direciona empresas a novos mercados
A diversificação também entrou na agenda brasileira. O presidente da ApexBrasil, Laudemir Müller, anunciou uma ação extraordinária para atender 5.300 empresas impactadas pelo aumento de tarifas no mercado norte-americano, com investimento de R$ 210 milhões nos próximos 12 meses.
A estratégia prevê atendimento individualizado e apoio financeiro para que empresas se preparem para novos mercados, inclusive na obtenção de certificações. A agência trabalhará com 36 mercados prioritários, entre eles Canadá, México, Alemanha, Turquia e destinos africanos como África do Sul, Nigéria e Etiópia, além de Indonésia, Cingapura, Índia e China.
Müller reforça que a exportação deve fazer parte da estratégia de desenvolvimento do país: “A exportação é um tema muito relevante para o desenvolvimento do Brasil, para a política econômica, para a nossa estabilidade e, principalmente, para a geração de emprego.
“Exportar é possível para todo mundo. Para o pequeno e para o médio, também é possível. Mas, para isso, tem que se preparar, tem que pensar, tem que ter um bom plano de negócio, mas é possível. E por isso que nós estamos aqui, por isso que a Apex Brasil está aqui. Esse é o nosso trabalho, de ajudar nesse processo da exportação, inclusive de aumentar a cultura exportadora no Brasil”, comenta.