Young manual worker presenting new business strategy to company managers and his colleagues in a factory.

O indicador que falta

Medir o fator humano não é encontrar um número mágico. Observe os padrões: rotatividade, absenteísmo, conflitos, retrabalho, afastamentos, denúncias, sobrecarga, falta de autonomia… Não por acaso, é essa a lista que a gestão de riscos psicossociais pede que a empresa acompanhe.
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Por Keli Rodrigues

Aprendemos a medir tudo no financeiro: faturamento, margem, produtividade, crescimento. O que sustenta esses números, porém, segue sem indicador: o fator humano.

E fator humano não é sinônimo de “bem-estar”. É liderança, confiança, autonomia, segurança psicológica e organização do trabalho. Subjetivo, sim. Impossível de avaliar, não!

Atendo donos de empresa e tomadores de decisão. No consultório escuto o que raramente chega à reunião de diretoria: a pressão, a solidão da decisão, o medo de errar e a certeza de que demonstrar fragilidade custa autoridade. Nas empresas, encontro o mesmo material do outro lado, traduzido em rotatividade, conflito e adoecimento. É a mesma mesa, vista de dois lugares.

Aquilo que o líder não reconhece em si costuma aparecer na equipe. Um gestor agressivo constrói um time que evita confrontá-lo. E uma empresa em que ninguém contradiz o líder perde um mecanismo de governança: sem contraponto, erros deixam de ser apontados, práticas ultrapassadas permanecem e boas ideias morrem antes da decisão.

Acompanhei uma organização com enorme distância entre o discurso da liderança e o que de fato se cumpria. Na psicologia, chamamos isso de dissonância cognitiva. No mundo corporativo, de gap entre discurso e prática. A equipe, menos preocupada com nomenclatura, chama de uma coisa só: não dá para confiar. E aprendeu rápido, passando a entregar apenas o necessário. Trabalhamos comunicação nessa empresa e o gargalo apareceu logo: não se muda o comportamento das pessoas mantendo intacto o sistema que produz o comportamento.

É aqui que muitas empresas erram. Tentam corrigir no colaborador o que nasce na cultura, na liderança ou no desenho do trabalho.

Medir o fator humano não é encontrar um número mágico. Observe os padrões: rotatividade, absenteísmo, conflitos, retrabalho, afastamentos, denúncias, sobrecarga, falta de autonomia… Não por acaso, é essa a lista que a gestão de riscos psicossociais pede que a empresa acompanhe.

O financeiro mostra o resultado que chegou. O fator humano explica de onde ele veio e antecipa para onde a empresa está indo.

A pergunta deixou de ser “estamos entregando resultado?”. A gestão madura precisa perguntar também: a que custo esse resultado se sustenta, e por quanto tempo.

Keli Rodrigues é neuropsicóloga, empresária, escritora e especialista em Neurobusiness. Dedica sua trajetória à compreensão do comportamento humano e de seus impactos nas decisões, na liderança, na saúde e no desenvolvimento dos negócios. É sócia fundadora da B²Mind Consultoria.

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