Quando fazer melhor já não é suficiente

Ulisses Sampaio comenta sobre as novas formas de trabalho, automação, Inteligência Artificial, clientes que mudam de comportamento mais rápido do que os produtos conseguem acompanhar. Não é só tecnologia mudando. É a lógica de como as organizações funcionam e geram valor.
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Por Ulisses Sampaio

Há alguns anos, falar em transformação parecia discutir o futuro. Hoje tenho a sensação de que o futuro decidiu chegar antes do combinado.

Novas formas de trabalho, automação, Inteligência Artificial, clientes que mudam de comportamento mais rápido do que os produtos conseguem acompanhar. Não é só tecnologia mudando. É a lógica de como as organizações funcionam e geram valor.

Isso cria um desconforto para quem lidera. Durante décadas, a gestão nos ensinou a melhorar: padronizar, reduzir desperdício, ganhar produtividade. Continua importante. Mas existe uma pergunta que precede essa disciplina: aquilo que estamos melhorando ainda deveria continuar sendo feito assim?

Já mapeei processos em organizações grandes o suficiente para ter certeza disso, e confesso que também já demorei demais para questionar um processo que eu mesmo tinha ajudado a deixar mais eficiente. Em um desses projetos, identificamos 316 processos. Um em cada cinco não precisava de melhoria, precisava ser extinto. E seguiam recebendo investimento, treinamento, indicador, ano após ano. A eficiência é traiçoeira: não pergunta se vale a pena, só pergunta como fazer melhor o que já decidimos fazer.

O mesmo vale para nós.

Experiência e domínio técnico continuam tendo peso, mas não garantem relevância sozinhos. Já vi profissionais muito bons terem dificuldade em desaprender. Aquilo que nos trouxe até aqui cria segurança, e a segurança nem sempre convive bem com questionar o que sabemos.

Tecnologia entra nessa história como acelerador, não como origem. A Inteligência Artificial amplia o que uma organização já é. Se a direção está certa, ajuda a chegar mais rápido. Se está errada, ajuda a errar mais rápido também.

Talvez transformar tenha menos a ver com prever o futuro e mais com rever, continuamente, o que fazemos e por quê.

Porque o maior risco, em períodos como este, não é ficar para trás. É seguir em frente, com competência e convicção, numa direção que já deixou de fazer sentido.

Ulisses Sampaio é empresário, professor, consultor e especialista em Gestão de Processos, Transformação Organizacional e Inteligência Artificial. Fundador do Universo BPM, criador do Método ATIA e referência nacional em inovação, automação e desenvolvimento de profissionais na área de gestão.

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