Especialistas mostram que escolher o sócio certo e investir em proteção legal é decisivo para a longevidade de um negócio
Reportagem: Hulda Rode
Empreender em sociedade é, muitas vezes, comparado a um casamento: afinidade, confiança e entusiasmo são essenciais, mas não bastam. Sem regras claras e blindagem jurídica, até a parceria mais promissora pode se transformar em litígio.

Segundo o advogado Dr. Rubens Pires, especialista em direito societário e consultoria empresarial do escritório Pires & Farias Associados, o primeiro passo para firmar uma sociedade é uma reunião ampla entre os sócios, de preferência acompanhada por consultoria jurídica especializada. Nessa etapa, devem ser discutidos objetivos do negócio, responsabilidades de cada um e formas de atuação. Registrar essas definições desde o início garante segurança jurídica, previne conflitos e cria condições para que a empresa cresça de maneira organizada e previsível.
Além disso, a definição clara de papéis, responsabilidades e aportes financeiros ajuda a evitar conflitos futuros. “Quando os papéis são bem definidos e transformados em cláusulas técnicas, construímos não apenas um contrato, mas um plano de crescimento estruturado, que promove sinergia entre os sócios e setores da empresa”, explica Dr. Rubens Pires. Segundo ele, a ausência desse cuidado é uma das principais causas de disputas internas e até dissolução de empresas.
“Quando os papéis são bem definidos e transformados em cláusulas técnicas, construímos não apenas um contrato, mas um plano de crescimento estruturado, que promove sinergia entre os sócios e setores da empresa”
Dr. Rubens pires
A blindagem jurídica, segundo especialistas, é o escudo que transforma uma sociedade em um negócio duradouro. Com contratos sólidos, protocolos de governança e assessoria jurídica contínua, os riscos são mapeados e antecipados. Isso garante que cada sócio conheça seus direitos, deveres, limites de atuação e forma de participação nos resultados, fortalecendo a relação societária e prevenindo desgastes.
No contrato social ou acordo de sócios, existem cláusulas indispensáveis: definição de objetivos e papéis, aportes e integralização de capital, administração e tomada de decisão, distribuição de lucros, cláusulas de não concorrência e confidencialidade, saída de sócios e direito de preferência, soluções de conflitos, blindagem patrimonial, sucessão e revisão periódica. Cada uma dessas cláusulas atua como um pilar que sustenta a sociedade e protege os envolvidos.
Erros comuns na formalização de sociedades incluem recorrer a modelos prontos da internet, não definir responsabilidades e aportes, ignorar cláusulas de saída, confundir patrimônio pessoal com o da empresa e não revisar periodicamente o contrato. Dr. Rubens alerta: “Sociedade que depende apenas da amizade tem data de validade. Quanto mais técnico e claro for o contrato social, menor a chance de conflitos e desgastes”.

Uma nova sociedade para o Brasil Por Elas
No cenário do empreendedorismo feminino, o exemplo da rede Brasil Por Elas ilustra como a escolha da sócia certa e um acordo bem elaborado fortalecem o crescimento da empresa. A fundadora Silvana Di Maio, com mais de 25 anos de experiência no mercado corporativo, decidiu que não seria possível crescer sozinha. Ao perceber que precisava focar em áreas estratégicas como comunicação, relacionamento e inovação, convidou Luciana Cibreiros para compartilhar a gestão do negócio.
A parceria nasce do entendimento de que complementariedade é força. Luciana assumiu a direção operacional, com foco em finanças, compliance e estrutura. Silvana segue na liderança estratégica e no relacionamento com o ecossistema feminino. As decisões macro são tomadas em conjunto, e cada uma possui autonomia em sua área.
Para Silvana, essa governança clara fortalece não apenas a relação societária, mas a confiança das mulheres que fazem parte da rede: “Quando elas olham para nós, enxergam que liderança feminina também é sinônimo de estrutura e sustentabilidade”. Com formações complementares e décadas de trajetória, a dupla acredita que essa nova fase posiciona o Brasil Por Elas em uma rota ainda mais sólida de expansão.
Como defendem as empreendedoras, a mensagem para o mercado é direta: sonhar grande exige técnica, contrato e parceria certa. E crescimento real se constrói com estratégia e proteção jurídica, transformando projetos em negócios duradouros.
“Sociedade que depende apenas da amizade tem data de validade. Quanto mais técnico e claro for o contrato social, menor a chance de conflitos e desgastes”.
Dr. Rubens Pires